Personagem

Vilão em ação- Gunmashine



Gunmashine traiu a Patrulha Cósmica para ser mercenário e viver na luxuria

Criado por Irlayne Silveira, e inspirado nas séries de TV dos anos 90 e 80, a “patrulha cósmica Cyberbio” é um ótimo exemplo das idéias boas sem incentivo a que me refiro no início do livro.
Quando vi o segundo episódio da saga, chamou-me atenção um personagem cuja profissão era “mercenário espacial”, mas o mais interessante é que ele era um ex-herói no grande estilo metal-hero (vide jaspion).
Em conversa com o saudoso Irlayne, eu o perguntei sobre a origem de tal personagem e, para minha felicidade, ainda não havia nada de muito certo. Sem hesitar, pedi sua autorização para poder escrever um conto sobre esse personagem que, quando vi, logo imaginei um mundo sombrio e uma história dramática. Nesse conto também testo a narrativa em primeira pessoa, que copio de Mary Shelley, cujo livro eu estava lendo na época

RELATÓTIO DE INTERROGATÓRIO
Relato realizado pelo patrulheiro Gungalactus da terceira horda de patrulheiros dos quadrantes inferiores da Galáxia. Base da lua de Mun-Hash.

Sistema Ganash.Ano 3.555.655 contado do Sol local.
O interrogado foi trazido a mim devidamente algemado com luvas magnéticas de precisão e conectado a um cinto infusão de antimatéria para que não pudesse tele-transportar quaisquer espécie de armas ou cyber-armadura. Pedi que certificassem os vetores dimensionais do recinto, visto que, segundo relatórios anteriores, a armadura que ele havia roubado possuía uma tecnologia de desmaterialização dimensional, permitindo que ele a invocasse mesmo que a fusão antimatéria fosse impossível.
Deixando de lado os aspectos técnicos do interrogatório, eu percebi em seu semblante algo sinistro. Já havia realizado muitos interrogatórios com os seres que se encontravam entre os mais maléficos da galáxia, porém nem os mais perversos demonstravam o ar de naturalidade que Gun Machine, como ficou conhecido, apresentava. Ele acedeu com um sorriso quando o técnico veio ajustar no cinto de infusão as configurações que eu havia pedido.
Ele nem mesmo demonstrava o certo desconforto que as luvas magnéticas causavam. Ele me lembrava mais uma daquelas pessoas que tolera com felicidade uma longa fila por acordar num bom dia.
Gun Machine era um patrulheiro exemplar antes de sua investida ao mundo do crime. Eu folheava sua ficha de bons antecedentes que condiziam com a inocência plácida de seu semblante. O fato é que, pela primeira vez em anos, me senti intimidado por um marginal que deveria interrogar, mas não por sentir compaixão ou acreditar naquele “inocente” semblante. Na verdade, eu temia sua tamanha convicção. Acredito que o termo para descrevê-lo não seria “inocente”, mas sim “isento de sentimento culpa”, pois logo após fitar seu semblante e ver seus bons antecedentes como patrulheiro analisei a ficha de sua vida de crimes, assassinatos e demais aberrações que possuía aquele ser que se comportava tal qual uma bondosa criança num hospital.

Acredito que não fui infeliz ao compará-lo com uma criança. Estas, apesar da graça atribuída pelos adultos, não têm consciência das leis, ou dos conceitos sobre certo e errado. Por isso uma criança toma o brinquedo de seu companheiro sem o menor remorso. Porém, diferente uma de uma, ao homem diante de mim não era atribuído qualquer tipo de graça pelos seus semelhantes, pois, apesar de na minha opinião ele não poder diferir o certo do errado, ele fez algo muito mais grave do que tomar o objeto de um companheiro.

Quando os técnicos nos deixaram a sós na sala de interrogatório ele me olhou pacientemente aguardando que eu iniciasse. Dei uma olhada rápida na ficha e retribuí o olhar com severidade. 
– Você tem consciência de por que está aqui? – Perguntei sem olhar para ele. Tinha os olhos focados na descrição do estado que foi deixada uma de suas vítimas.
– Não creio que seja para beber algo refrescante. Isso me cairia bem. Aquela coisa “nutritiva” que servem na prisão não é muito agradável. – Respondeu ele com um irônico ar de sinceridade.
Os vilões perversos são os mais fáceis de interrogar. Eles nunca irão dizer o que você quer saber se você inquiri-los desafiadoramente. Mas se acrescentar um tom de admiração na sua fala, ou então colocá-los numa posição favorável, eles lhe contarão seu plano maligno em detalhes. Por isso hesitei na primeira pergunta. Queria ser preciso e atingir logo o meu objetivo. Aquele interrogatório, certamente, seria o mais importante que eu já havia realizado. Os senhores concordarão comigo após ler a transcrição literal do que Gun Machine me contou.
Uma pena que minha experiência não foi necessária para que ele dissesse tudo, a não ser é claro, na escolha da pergunta:
– Por que um Patrulheiro Cósmico se tornaria um inimigo tão perturbador a própria patrulha? Por que ele iria contra os princípios que a União Galáctica tanto preza? 

TRANSCRIÇÃO DO RELATO DO CRIMINOSO CONHECIDO COMO GUN MACHINE
1.
“Nenhuma lei será violada sem a devida punição”, é o que vocês dizem.
O que você defende, patrulheiro? A lei? A ordem? O progresso? A União Galáctica? Existem lugares, em que apenas uma das palavras de seu lema é conhecida: punição. Esta é a dor derivada do sofrimento, gerada pelo esquecimento ao qual se submetem os confins do Universo. Lá, a lei é apenas um conjunto de palavras sem significado objetivo – inclusive o seu lema tão floreado. Somente uma dessas palavras tem significado real, a punição existe e pode ser sentida na carne, pois a lei é desconhecida por todos. Lá, em Babylon, éramos todos condenados por crimes que não cometemos. Culpados de nossa triste existência.
Eu nasci e cresci num ferro-velho que meu pai administrava. O maior bem do nosso planeta era o lixo, e no lixo eu vivia. Sabe, muitas vezes as pessoas que tem coisas de mais se desfazem de objetos que são interessantes aos que tem de menos. Mesmo sendo muito pobre eu tinha coisas que uma criança normal dificilmente poderia ter. Eu me lembro quando meu pai negociou a compra de uma nave XY-Wing, um sonho para a minha época. Lembro que eu e meus amigos íamos para o alto dos prédios de ferro do centro da cidade observar o fluxo das naves, e era sempre incrível quando víamos uma XY passar envergando seus quatro motores de fusão de núcleos re-combinados, mesmo não tendo a mínima idéia do que isto significava. Sabe, até hoje eu conseguiria reconhecer o som da fusão daqueles motores mesmo que estes estivessem a centenas de metros de distância.
A nave era ferro-velho, e o meu pai ficou muito satisfeito pela bagatela que conseguira comprar-la. Seus motores já haviam esgotado sua vida útil e não poderiam ser mais concertados, porém, o material do qual eram feitos, como o Minério de ferro Trans-urânico e o lítio de polaridade invertida, nos renderiam um bom dinheiro. Eu primeiro tentei fazer com que meu pai não a desmontasse, mas depois de ele me convencer que ela não poderia ser conservada e que teríamos um grande prejuízo não vendendo suas partes aproveitáveis, roguei pra que ele apenas deixasse que eu a tivesse por dois dias.
Acho que antes de eu conhecer a minha esposa, aquele tinha sido o melhor dia da minha vida. Os bancos da nave eram feitos de couro e o painel ainda se acendia. Eu toquei em seus controles e podia ouvir o ranger dos motores na traseira da nave ao se movimentarem. Eles não se ligavam mais, porém eu podia ouvir o seu som e era como se eu voasse por toda a galáxia a bordo daquele artefato mágico.
Por dois dias eu fui o garoto mais feliz do universo. Porém, não era a nave que mudaria a minha vida, mas sim algo que meu pai encontrou dentro dela.
Eu não quis assistir ao desmonte daquela maravilha. Era o mesmo que ver um parente sendo dissecado. Mas pouco depois de começar ele me veio com algo: era um drive de vídeo que continha informações sobre uma “organização protecionista formada pelos profissionais mais nobres do universo”, como dizia a descrição que acompanhava. Porém, para mim, quando eu vi o vídeo, eles não eram apenas um bando de policiais galácticos, era uma legião de Super-Heróis. No princípio eu acreditei que fosse mais uma daquelas séries ou filmes que se compra pela rede.
Eu continuei acreditando que a Patrulha Cósmica fosse uma mera ficção durante anos, até chegar a minha adolescência. O curso de minha vida foi mudado com duas tragédias, a primeira vou contar-lhe agora.
Havia sido um bom semestre no ferro velho. Meu pai havia conseguido um ótimo comprador para seus produtos reciclados e pensava até em ampliar o nosso ou até mesmo comprar outro ferro-velho na região. Ele estava guardando créditos para me enviar para morar com meus tios na Cidade-Capital de nosso planeta. Ele não queria que eu fosse o herdeiro de uma fortuna de lixo, ele queria que eu estudasse e conseguisse ser muito mais do que ele jamais poderia ser. Meu pai era um homem bom apesar de seu pouco conhecimento.
Naquele fatídico dia, ele havia levado a mim e a minha mãe para jantar fora. Ele queria comemorar o nosso progresso durante o semestre. Naquela noite ele disse que eu iria morar com meus tios na Cidade-Capital. A comida estava maravilhosa e estávamos contentes como nunca em nossas vidas.
A noite estava clara. As duas luas de meu planeta encontravam-se cheias, um evento raro. Foi quando eu percebi uma enorme sombra se materializar diante de uma delas. Ela vinha em nossa direção numa velocidade muito alta. Era como se uma montanha caísse do céu. Foi então que começou a chover feixes de luz, que foram revidados pelo solo. Estávamos sendo atacados.
Anos depois eu vim a descobrir que fomos atacados por uma raça nômade que há tempos estava sendo perseguida pela patrulha, mas para aquele garoto de quatorze anos, o mundo estava acabando. Eu só me perguntava por quê. Tudo ia tão bem, nossas vidas haviam acabado de mudar. Parecia que o destino não queria a minha felicidade. Eu esperava que aquilo tudo fosse mais um sonho ruim do qual eu acordaria em breve. Mas o pesadelo não acabou.
Por dois dias a morte veio do céu. Depois que eles eliminaram todas as nossas forças de defesa aeroespacial eles pousaram suas grotescas naves que pareciam feitas de metal bruto. Seus tentáculos eram gosmentos e primeiro eles devoraram os adultos, os homens.
Meus pais mandaram que eu fugisse enquanto eram encurralados. Eu me juntei a outras crianças. Eles, os invasores, não se alimentavam de crianças, só dos adultos. O sol lhes fazia mal, e em poucas semanas nossa atmosfera estava coberta de nuvens roxas produzidas por mecanismos orgânicos gigantes que eles construíam.
Tudo era escuridão e medo. Eu sentia muita falta da minha família.
Nos escondíamos nos piores buracos que podíamos encontrar. Nos alimentávamos de restos. E assim foi por meses de insanidade. A cada dia eles capturavam um de nós. Agora sua fome também se estendia as mulheres e a tudo que era vivo. Nunca tivemos coragem de olhar pra trás, mas só ouvíamos o som dos gritos e após o som macabro dos ossos se quebrando. Não conseguíamos dormir mais, e a comida estava ficando difícil de achar. Era difícil saber quanto tempo se passou depois disso, pois não havia diferença entre dia e noite. Estávamos sós no mundo, sem nossos pais ou alguém que pudesse nos proteger.
Muitas pessoas encarariam tal fato como traumatizante. Eu, porém, era jovem e ingênuo mal sabia rotular o que acontecia.
Éramos agora menos de dez e eu estava exausto. Dentro de algumas horas só restavam três, pois eles haviam vindo em um grupo maior. Eu entrei numa construção antiga. Ainda consigo sentir o cheiro forte e amargo do mofo e as paredes sujas e molhadas, infestadas de lodo. Alguém caminhava a passos metálicos atrás deles. Ouvi muito barulho, o som de armas disparando. Agachei-me num canto e abracei os joelhos. Fechei os olhos com força. Não, eu não queria ver. Eu rezava para que fosse rápido. Já não havia mais luz, já não havia esperança.
Tudo era frio e úmido e eu estava desconfortável. Mas foi aí que o calor surgiu.
Eu apertei ainda mais os olhos, mas certa luz invadia minhas pálpebras como se eu não as tivesse fechado. Perguntei-me se estava morrendo.
– Ele ainda está vivo! Temos um sobrevivente aqui! – Eu ouvi límpida aquela voz grave que parecia vir do além. – Garoto, você está bem?
Abri os olhos e vi primeiro a luz que fez minhas pupilas se contraírem gerando certo desconforto. Ela vinha de uma lâmina de plasma que era segurada por mãos protegidas com estruturas de ferro polidas e bem montadas. A segunda coisa que vi foram as pequenas luzes piscarem intermitentes no peitoral da armadura.
Quando minha vista se ajustou eu pude vê-lo. Aqueles olhos luminosos tão amarelos quanto o próprio sol fitando-me sob o negro visor. A Cyber-Armadura brilhando sob a luz da espada. Eu não podia acreditar.
-Garoto, você está bem? Consegue falar comigo? – Insistiu o Patrulheiro.
– Eu morri? – Perguntei aflito.
– Não. Ninguém mais vai morrer hoje. – Respondeu ele estendendo-me sua mão.
Você deve se lembrar o quanto é triste quando alguém te conta, ou você descobre que o Grande Martson não existe. Mas o que eu senti era como se, depois de tudo, eu fosse convidado para visitar sua casa no “Vórtex mágico”. Aquilo tudo era irreal pra mim. As naves dos invasores pegavam fogo, e tudo que restava deles eram pedaços mutilados espalhados pelo chão.
As unidades MECHA desciam do céu trazendo consigo destróieres dos inimigos em chamas. Parecia que a cada vez que um robô gigante descia o céu se tornava menos negro e a luz voltava a brilhar.
– RICHARD! – Gritou o patrulheiro ao meu lado. E um dos titânicos robôs que ao caminhar fazia o chão tremer olhou em nossa direção. Ele deu dois passos e eu ouvi uma voz retumbante:
– Mais sobreviventes?
– Sim, leve esse campeão pra base médica. – Respondeu o patrulheiro.
O Titan de ferro estendeu-me sua gigantesca mão. O patrulheiro pediu pra que eu não tivesse medo e subisse nela.
-… O sofrimento acaba aqui, meu jovem! – Disse-me opatrulheiro. – Você vai ficar bem.
Eu havia perdido tudo, mas naquele dia eu acabara de ganhar um ideal: meu sonho era me tornar um patrulheiro.

Equivalente ao Papai Noel.

2.
Acredito, patrulheiro, que não preciso explicar-lhe o que acontece com os órfãos resgatados pela patrulha cósmica na adversidade. Sabe muito bem que eles são enviados para o orfanato nas luas de Losd Smaein e que, quando atingem a maioridade são convidados a se submeterem ao treinamento que os candidata a ser Servidor da Patrulha.
Eu tinha uma visão muito limitada da Patrulha, e não sabia dos procedimentos. Não chegaria a ser um patrulheiro logo de início, mas a minha carreira como servidor da patrulha fez minha admiração crescer ainda mais.
Eu lutei ao lado de veneráveis Patrulheiros, que deram a vida para salvar milhões em planetas esquecidos na galáxia. Eu quis ser como eles. Por vezes, eu queria até mesmo ter a honra de morrer como eles.
Os servidores só eram convocados para auxiliar os patrulheiros em missões de resgate ou em incursões na qual a União Galáctica não pudesse, por motivos políticos, interferir com seu próprio exército.
Certa vez, um cruzador quântico havia perdido a estabilidade do seu motor e se chocaria com um planeta, causando grande catástrofe. Não sei se você já ouviu falar desse caso, mas eu estava presente. Naquela época, a minha horda era a Horda De Elite da patrulha, eu tive a honra de servir ao próprio Gun Master em pessoa, um dos melhores, senão o melhor patrulheiro que essa galáxia já teve a honra de ter.
O cruzador já havia sido esvaziado com sucesso. Mas era impossível evacuar o planeta a tempo. Eu, na aurora de minha idade adulta vi o próprio Gun Master ouvir do técnico que as perdas seriam catastróficas, pois era praticamente impossível desativar o motor quântico daquele cruzador; e a nave não poderia ser destruída, pois a possibilidade de criar um vortex espacial era acima de noventa por cento. Só havia um modo de se desativar o motor: destruindo manualmente o núcleo atômico, o que seria a morte para quem o fizesse.
Eu ainda posso ouvir as palavras:
-Servidores! Escutem-me! – Ele gritou com sua grave voz. – Eu ordeno que deixem essa nave nesse instante. Eu Gun Master, irei até o núcleo do motor evitar essa catástrofe. Espero que, ao se tornarem patrulheiros, lembrem-se de minhas palavras. Servidores, um patrulheiro não tem obrigações consigo; nem mesmo com a luta contra o mal; o dever de um patrulheiro, a obrigação maior de um patrulheiro é defender a vida acima de tudo.
Eu ainda posso ver os olhares de reverência dos servidores. Ninguém tentou impedi-lo, nem mesmo convencê-lo do contrário. Assim como cada um naquela nave, nós, servidores, só lamentamos não ter uma Cyber-Armadura para poder chegar até o núcleo junto com aquele patrulheiro, e ajudá-lo a salvar aquele planeta.
Pela excelente atuação naquele ocorrido, cada Servidor da Horda de Elite foi nomeado Patrulheiro Cósmico. Quando eu enverguei pela primeira vez uma Cyber-Armadura eu só lamentei que meu pai não pudesse ver. Mas, como certa vez me disse Gun Master: “quando você realizar seu sonho, é impossível que onde quer que seu pai esteja, ele não tenha orgulho de você. Qual pai não se orgulharia de um filho que alcançou o seu sonho?”.
Certa vez, enquanto servidor, eu fiz um requerimento, pedindo melhor reforço de patrulheiros na região do sistema em que ficava o meu planeta natal: Babylon. Por conhecer melhor o local, eu fui o Cyber-Patrulheiro designado. O Bio-patrulheiro que seria meu parceiro seria Kanomust.
A vida de patrulheiro não era fácil. A cada dia eu enfrentava vilões mais fortes, mais maléficos e mais traiçoeiros. De certa forma, a vilania havia se tornado uma instituição naquele lugar antes esquecido pela união galáctica. Mas como disse meu supervisor certa vez: “às vezes é necessário demolir para reconstruir”.
Mas era um trabalho difícil. A cada líder que eu prendia, um novo mais cruel e astuto surgia.
Uma noite escura eu caminhava à paisana por becos sombrios da cidade-capital quando eu vi uma cena inusitada. Uma mulher (humana) corria de dois homens. Eu apenas segui, pois parecia que eles não queriam assaltá-la ou coisa do tipo. Ela tinha um pacote na mão que parecia ter roubado. Um dos homens a agarrou, e então ela retirou de um dos bolsos da jaqueta um bastão retrátil de metal. Depois que ela começou a bater minha preocupação inverteu o foco: se antes eu tinha medo que ela se machucasse, eu agora temia que ela os matasse. Quando me aproximei, ela deixou-os fugir.
– Pare aí mesmo! – Disse ela com o bastão em punho.
– Não pretendo te machucar – disse. 
– Aconselho que se preocupe com você mesmo.
Eu sorri e continuei me aproximando. Ela me atacou diversas vezes com o bastão, mas eu me esquivei com facilidade. Até que, de súbito, ela pareceu entender a mecânica de meus movimentos. Ela então me acertou a perna, e para não ser atingido na cabeça, eu tive que materializar o braço esquerdo de minha Cyber-Armadura para bloquear o golpe. Ela assustou-se com o som dos metais da armadura e do bastão se chocando.
– Seu braço – começou ela surpresa. – Isso é uma–
– Uma Cyber-Armadura – completei.
– Apenas patrulheiros usam Cyber-Armaduras – observou ela.
Imediatamente ela largou o bastão.
– Quem te garante que eu não matei um e roubei a armadura dele? – Propus. Eu não queria me revelar logo de cara. Aquele joguinho estava interessante e ela era uma linda mulher. Além do mais, não convinha ser um patrulheiro trinta e seis horas por dia3.
– Ninguém mata um Patrulheiro Galáctico! – Ela disse. Tremia. Parecia que o pior dos vilões estava diante dela. Num lugar onde a vilania domina, parece plausível se temer aqueles que trazem consigo mesmos a lei.
– Quem dera isso fosse verdade… – Lamentei.
– Você vai me prender num daqueles cartões?
– Você fez algo de errado?
Ela não disse nada. Mais deixou cair a sacola que carregava. Só havia suprimentos alimentares.
– Eu roubei. – Declarou ela.
– Só os seres que cometem atos contra a vida devem temer um Patrulheiro.
– Eu só estou tentando sobreviver…
Eu a fitei. Como podia um ser ter propriedades tão contraditórias harmonizando-se em seu interior? Ela era rude e sensível; agressiva, mas agora ao olhá-la eu sentia a necessidade impulsiva de protegê-la.
Conversamos um pouco num lugar menos hostil. Não foi necessário muito para nos conhecermos. Ela também havia sobrevivido à trágica invasão e ao compartilhar nossas tristezas, logo nos tornamos amigos. Conseqüentemente, a proximidade e a identificação nos tornaram amantes, e em seguida, marido e mulher.
Não pretendi me estender na narrativa desse romance, pois tudo nele é obvio até para uma criança. Ela era uma mulher linda e forte, decidida. Tinha sua personalidade forjada por aquele mundo hostil. Dizem que as flores que nascem na adversidade são as mais belas. Quem quer que tenha dito isso estava certo. Tão certo quanto o meu encontro com ela seria gerador da minha paixão.

3.
Os anos em que meu filho chegou até o seu décimo aniversário foram os mais felizes. Tudo ia bem: eu e kanomust havíamos conseguido prender os seres que mais ameaçavam aquele lugar. Kanomust era como um grande irmão para mim, inclusive, meu filho o chamava de tio. Acredito que nunca terei tanta felicidade em minha vida quanto tive naquela época.
Felicidade é relativo.
Disse antes que minha vida havia sido cerceada por duas tragédias. A segunda se aproximava, mas a névoa da felicidade encobria meus olhos.
Certa vez, eu e Kanomust havíamos prendido o pior dos vilões de babylon. Ele não era um monstro, ele não era um “pirata espacial”: era um ser humano. Um monge Tyrodiano me disse certa vez que o ser humano é a raça mais amaldiçoada do universo por sua instabilidade emocional. Ele me disse: “tudo é maravilhoso enquanto um homem chama de ‘bom’ as coisas que o cercam, mas tudo pode colidir e se tornar tragédia se ele decidir chamar de ‘mal'”.
Confesso que aquilo não significou nada para mim. Rohtul era o pior vilão que eu já enfrentei, ele corrompia e destruía tudo que encontrava. Certa vez, ele conseguiu mobilizar toda uma vila contra nós. Convenceu-os que nós éramos os vilões e que o comércio de armas, drogas e os assassinatos por encomenda era a única coisa que os protegia da ditadura da união galáctica.
Ele era perverso, mau e vingativo. Ele tinha um método de vingança: se alguém contestasse sua autoridade e se levantasse contra ele o destino era certo. Rohtul mandava que matassem todos os conhecidos do sujeito, destruía tudo que ele tinha, mas o deixava vivo. Muitas vezes eles eram assassinados pelos seguranças por tentar se vingar de Rohtul que adorava ver os semblantes desesperados.
Eu não atentei para as pistas. Nem mesmo quando o próprio Kanomust comentou comigo sobre a absolvição da Rothul no seu julgamento.
– A patrulha está em revolta – me dizia ele. – Somos os executores da lei, não seus juízes, mas de forma alguma a patrulha cósmica aceita ficar quieta diante da soltura desse maluco!
Eu estava cego. Acho que de certa forma era uma defesa. Eu tinha uma família, coisa que havia perdido há muito tempo. Talvez não aceitasse o fato de que ela estava em risco.
Foi então que houve um pequeno incidente com um monstro do tipo Gortha que havia roubado algumas armas do sistema defesas do planeta. Nós o perseguimos até uma das luas de Babylon e lá fomos encurralados. Não podíamos fugir para lugar algum e havia um sinal embaralhando todos os nossos sensores, inclusive os dimensionais.
Foi aí que minha consciência voltou a limiar da realidade.
Senti uma terrível angústia ao pensar na possibilidade, mas ainda assim me forcei: minha identidade é protegida pelo sistema de inteligência da própria patrulha, ninguém sabe quem sou a não ser Kanomust. É impossível ele conseguirem qualquer informação sobre mim…
– Patrulheiros – disse uma voz na sombra que reconheci muito bem. – Admiro muito o trabalho de vocês, é serio. Não possuo ressentimento algum, confesso. Eu fazia o meu trabalho, vocês fizeram o de vocês. Minha admiração é grande. Tão grande que, apesar de incompatíveis, eu gostaria que nossas atividades coexistissem. Eu não tenho interesse algum na vida de vocês.
Eu desejo humildemente ter acesso ao poder que rege o universo: os créditos. Uma vida rica e farta é o meu sonho. Posso conceder isso a vocês também… Basta que seja mútuo o nosso desejo de fazer trégua e nem eu interfiro no “nobre” trabalho de vocês e nem vocês no meu…
A vida nos gera experiências. Com ela nos tornamos mais rígidos, mas essa rigidez advém dos calos. Eu não possuía calos e era um idealista. Eu era aquilo que eu via nos vídeos enquanto pequeno. De uma forma ou de outra eu me tornaria o que vocês chamam de vilão, mas naquele momento, mas com aquela mentalidade que eu tinha, eu não me tornaria vilão com o meu próprio consentimento. Eu me lembro de como Kanomust me olhou e bateu no peito com firmeza. Ele apoiaria qualquer decisão minha. Naquele momento eu encarei como apoio, mas após o ocorrido refleti que havia se transformado em culpa pela morte de um irmão inocente cujo único erro foi confiar em mim.
– Nunca! – Respondi. Aquela palavra me sentenciou.
– Pagará pela sua tolice…

4.
– Devem efetuar este movimento circular com suas pistolas para ajudar na refrigeração do núcleo de íons… – Dizia o instrutor sobre as novas armas que recebíamos. Mas eu devaneava em pensamentos preocupantes. – Já está em andamento o projeto das Cyber Armaduras, mas ainda precisamos de mais testes para assegurar a segurança psíquica de seus usuários – continuou ele.
-Hey, ce ta legal? – perguntou-me um biopatrulheiro ao meu lado. Karatcha era o seu apelido.
-Estou sim. – Menti. – Apenas um pouco preocupado com alguns problemas do trabalho.
– Vocês Cyber-patrulheiros são muito sortudos.
-Por que? – Perguntei curioso.
– A versão 002 das armaduras do tipo Cyber vai ser uma revolução. Enquanto agente ainda vai ter que esperar um bom tempo até que nossas armaduras evoluam por si sós.
– Mas eu li certa vez algo sobre os discos Mechanimal. Acredito que eles seriam de grande serventia pra vocês, não?
– Acho que há muito tempo você não tem dado uma olhada nos folhetins da patrulha, meu amigo. Faz quase uns dez anos que os discos se perderam. Não ficou sabendo da operação dirigida pelo GunStorm?
– Sim, mas eu não me recordava da conexão com os discos!
– Você anda realmente ocupado, meu companheiro.
Prestemos atenção na instrução sobre as novas pistolas. Meu parceiro não pode vir e eu to aqui quebrando galho pra ele, então tenho que passar tudo direitinho. – Disse ele sorrindo.
– A nova armadura possuirá, dentre outras inovações, a capacidade de tele-transporte através do eixo de antimatéria e de vetores dimensionais, possibilitando a transformação em qualquer lugar – continuou o instrutor. Ela possuirá também mecanismo de resistência R10 que permite a sobrevivência em lugares inóspitos, como por exemplo, órbitas estelares. Mas o protótipo ainda apresenta problemas na rematerialização, causando algumas alucinações e danos psíquicos graves aos usuários, como demonstra essa simulação…
Retornei a Babylon pesaroso. Meus passos eram pesados, pois eu parecia carregar toda a preocupação do universo. Eu só queria fazer uma coisa: ver a minha família.
O silêncio do prédio me incomodava e o modo como os olhos vermelhos do porteiro Raidiano me olharam me assustou. Ele parecia aflito, num rubro tom no qual eu nunca tinha visto um raidiano antes, seu esguio corpo humanóide espreitava pelas sombras não podendo ser visto, mas o vermelho de seu olhar era intenso. Dizem que quanto mais rubro é um olhar de um raidiano, mais infortúnio ele enxerga na alma daquele que é observado. 
Quando abri a porta do apartamento tudo estava escuro. Foi então que um holograma surgiu.
-Olá, bravo patrulheiro. Peço que não acenda a luz, pois quero que escute minha mensagem antes que fique chocado com a cena terrível que irá presenciar. – Me disse o rosto azul e holográfico Rohtul. Obedeci e não acendi a luz, por enquanto. – Vejo que foi astuto nesse momento comportamento a que não apresentou quando eu lhe dei a única chance de se dar bem aqui em Babylon. Saiba, meu caro patrulheiro, que poder é tudo. Todos que possuem poder são respeitados, por que tem potência para fazer o que quiserem, tem condições de pagar o preço pelas coisas que necessitam. Eu, como nunca havia feito antes, lhe ofereci algo de graça. Você recusou tal generosa oferta, o que considerei um grande insulto. Agora, eu lhe tirei algo para que você ficasse pobre e precisasse de mim, para que ficasse em dívida. Eu tirei de você algo que você não tem condições de pagar para ter de volta. Isso é o poder: ter condições de pagar!
Levei a mão ao interruptor, a parede estava molhada, olhei para minha mão e vi o que temia: o liquido viscoso e rubro que embebia a minha mão e havia tomado a parede era sangue. Meu coração parecia querer rasgar o meu peito de tanta tamanha a intensidade que batia. Não acendi a luz.
-Vou acabar com sua aflição. Permito que acenda a luz. De qualquer forma, depois do que vir, levará a sério minhas palavras e prestará atenção no que eu disser.
Apertei o botão.
Eu já havia visto, ao longo de minha vida muitas cenas macabras, mas aquela havia sido a pior. Havia nacos de carne espalhados por toda a minha sala, e até no teto. Alguém havia sido estripado violentamente e manchado todo meu apartamento com sangue. Uma única parte de seu corpo havia sido mantida intacta, propositalmente eu supus, para que eu pudesse identificá-lo. Era Kanomust. Me ajoelhei diante da cabeça e a acolhi com minhas mãos tremulas. Eu estava em choque, mas consegui ouvir atentamente o que ele Rohtul dizia:
-Venha até o meu palácio nas coordenadas contidas nesse disco holográfico em três dias. Virá sem sua Cyber Armadura e trará para mim a sua assinatura genética. É isso mesmo, o preço que cobro pela vida de sua família é sua Cyber Armadura, a melhor arma que existe no universo.
– Seu desgraçado! Eu vou acabar com você! – Gritei inconseqüentemente.
– Desgraçado? Eu diria que quem está nessa situação é você!
– Respondeu ele com um sorriso cínico nos lábios. Ah, eu havia me esquecido de dizer que não adiantará nenhum ato ‘heróico’ dentro de meu palácio, pois os a fusão de antimatéria é bloqueada dentro da minha fortaleza, impossibilitando o tele-transporte. Não traga amigos, ou eles morrem junto com você e a sua família. Nos vemos em três dias.
E desapareceu.

5.
Não tive escolha, pense bem. O que você não faria para salvar a vida de sua própria família? Nesses momentos é que você se pergunta o quão importantes são os regulamentos, as leis e tudo mais se na hora válida elas não servem de nada.
Ninguém poderia me ajudar a não ser eu mesmo. Foi fácil chegar até a área de testes da estação Urubatle, afinal, eu era um patrulheiro. Tinha pouco tempo para configurar aquela estranha Cyber-armadura de cor escura para a minha assinatura genética. Mas o fiz com sucesso.
Lá estava eu na luxuosa sala de conferências do palácio de Rohtul apenas aguardando o momento certo da minha vingança. Eu via numa grande tela minha esposa e filho amarrados por uma espécie de feixe magnético que cintilava em seus punhos. Eles estavam pálidos e com feições doentes. Meu ódio aumentava a cada segundo.
– Você está triste, patrulheiro. O que foi? Descobriu subitamente que sua lei não funciona aqui? – Disse ele rindo. – Vou te alegrar! – disse ele apertando um botão na sua mesa. Minha esposa contorceu-se e gritou enquanto tomava choques elétricos em consonância com as risadas macabras daquele monstro na minha frente. Eu simplesmente cerrei os punhos de ódio. Parecia que eu iria quebrar a minhas próprias mãos de tanta força que eu imprimia nelas.
– O que foi patrulheiro? Por que não está sorrindo? Não vê como eu me divirto? Eu posso pagar o preço pela minha peculiar diversão, mas e você? Pode pagar o preço que peço pela volta da sua família? Ou pode pagar por uma vingança? Meu sangue custa caro!
Ele apertou o botão mais uma vez. – O que você quer? – perguntei com a voz tremula baixando a cabeça para não ver o telão e tentando não ouvir os gritos. – O que eu preciso fazer para tê-los de volta? – Primeiro, ajoelhe-se. – Ordenou. O fiz sem relutância. – Entregue-me sua assinatura genética para que eu possa ter acesso a sua cyber-armadura.- Entreguei-lhe o disco da mesma forma.
Ele gargalhou copiosamente, como se a tragédia da minha vida fosse uma grande piada.
– “O que é engraçado?”, você deve estar se perguntando – começou ele se esforçando para falar entre as gargalhadas. – Eu não sei se você imaginou isso, mas eu posso matá-los agora se eu quiser, eu posso pagar por isso, sabia? Nada me faria mais feliz nesse dia do que ver um Patrulheiro Cósmico chorando aos meus pés, feito uma garotinha. – Ainda gargalhando ele tirou um controle remoto do bolso interno do fino terno branco que usava e começou a dançar com o dedo indicador sobre o grande botão vermelho. – Nós vivemos numa sociedade regida pelo consumismo, patrulheiro. Você sabe o que significa “consumir”? Gastar! Corroer até a extinção; devorar, destruir; extinguir! – Agora ele havia apoiado os braços nos joelhos e gargalhou bem na minha cara. Sabe, se eu te deixar ir eu não serei um bom membro da sociedade, eu não serei um “bom consumidor”. Então, o que você acha que eu devo fazer? –
Ele começou a dançar com o dedo sobre o botão novamente. Eu senti o calor das lágrimas no meu rosto. Eram lágrimas de sangue, lágrimas de ódio. Meus músculos se contraíam e eu não pensei mais. Tele-transportei o braço direito de minha armadura, e com esta mão eu senti os frágeis ossos da mão de Rothul se quebrarem. Quando se usa uma Cyber-armadura fraturar o membro de um ser humano é tão fácil quanto quebrar um ovo com a mão. Ele berrou feito um bezerro e seu corpo ficou mole diante de mim. Transformei-me completamente. O mundo curvava-se a minha volta, eu sentia o poder em minhas mãos, eu poderia fazer tudo.
Você sabe qual é a sensação de poder fazer qualquer coisa? Eu senti isso. E esmaguei seu pé esquerdo pisando nele. Apesar de não parecer possível ele gritou ainda mais alto.
– Você pode pagar um braço novo? – Perguntei pra ele. – Você pode pagar uma perna nova? Diz-me! Eu quero saber seu filho da mãe. Diga-me se você pode comprar uma cabeça nova pra você?
Ele respirava ofegante. Olhos arregalados. E só conseguiu dizer simples palavras:
– Como? Como? Isso é impossível? Como? Como?
-Você pode pagar uma perna nova? – Eu segurei a sua perna na altura da canela tomando o cuidado de pisar sobre o seu peito. – ME DIGA! VOCÊ PODE?
– Não, eu não posso… O que você vai fazer? – Disse ele. Agora suava frio.
Foi como desmontar um brinquedo. Arranquei com facilidade a perna direita dele prestando atenção para ouvir o som da carne se rasgando, dos ossos se partindo. Eu lembrava desse som, na minha infância, nos corredores úmidos e sombrios… Os ossos fazem borbulhas de sangue enquanto são contorcidos. Um estalo oco e surdo. Ele entrou em choque.
Com um soco esmaguei a cabeça dele no chão com a mesma facilidade que o faria com um tomate. O som dos ossos do crânio se partindo é semelhante ao de um ovo se quebrando no chão. O cheiro do sangue era doce e ferruginoso. Olhei para as minhas mãos cobertas pela armadura, e esta por sua vez, coberta de sangue. Elas tremiam.
Eu tremia toda vez que sentia aquele cheiro, toda vez que ouvia aquele ruído. Agora me lembro, no escuro da noite, meus amigos retardatários gritando. Quem corria mais vivia, quem se cansava era devorado…
Mas eu paguei o preço pelas minhas ações. Eu vi pelo telão minha família ser eletrocutada. Não posso descrever tal cena. Não consigo.
Lembrei-me imediatamente de coisas da minha própria vida das quais eu havia esquecido. Eu vi novamente a cena das naves partindo, fugindo da invasão. Nós éramos pobres, não tínhamos o direito de sobreviver e fomos abandonados para sermos devorados por aquelas bestas. Se tivéssemos o poder, minha vida poderia ser diferente, eu poderia ser feliz. Eu não pude comprar minha felicidade. Parecia que eu não me lembrava de tudo isso, eu pensei.
Mas na verdade aquilo tudo havia sido tão horrendo que eu não conseguia dar um nome. Agora, eu, adulto presenciando a cena de novo consegui intitular como tragédia o fluxo triste e amargo de minha vida. Agora eu tinha palavras para nomear as aberrações que presenciei.
E venho pagando até hoje o preço pela minha vingança insensata, patrulheiro.
De que vale a lei se o que conta no fim de tudo é o poder? Eu não sou um criminoso. Sou apenas um visionário, eu quero possuir o poder. E infelizmente quem tem créditos tem o poder. Rohtul não estava errado no fim das contas. Eu não tinha poder para pagar o preço da felicidade que eu desejava, por isso eu o procuro agora.

TRECHOS DO DEPOIMENTO DO RELATOR PRESENTE NO CASO DO ASSASSINATO DO PATRULHEIRO GUNGALACTUS.
Eu já estava suspeitando de muita coisa quando ele começou a contar toda aquela história, mas no momento que eu o ouvi fazer a seguinte pergunta eu entendi por que ele havia sido capturado tão facilmente:
– Eu já respondi sua pergunta, Gungalactus – disse Gunmachine. – Se importaria de responder uma minha? Não quer me falar sobre a localização do Disco Mechanimal do tigre?
Eu parei o relato naquele momento. E comecei a tremer. E atentei para um fato: não existe como bloquear vetores dimensionais. Aquilo tudo era uma armação!
Ele se transformou e quebrou facilmente as algemas magnéticas. Não me deixou sair eu assisti forçadamente enquanto ele torturava cruelmente o interrogador usando a força superior de sua Cyber-armadura. Até que num último suspiro, Gungalactus disse apenas um nome antes de perder as forças: “Eskambal-A4”.
Poucos dias depois eu fiquei sabendo que Gungalactus era o principal investigador do caso do contrabando dos discos Mechanimal que poderiam estar localizados no planeta Escambal-A4.
Gunmachinne não havia sido capturado de graça. Foi fácil de mais a armadilha ridícula na qual ele caiu. Ele sabia que seria interrogado por GunGalactus e planejou tudo. Qual o melhor lugar ara pegar um patrulheiro cósmico do que dentro da própria patrulha? A situação era perfeita para pagá-lo desprevenido!
Aquele criminoso é perigoso. Ele deve ser detido logo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »
Powered by: Wordpress